sexta-feira, 28 de maio de 2010

Clipagem Nerd - A publicação digital e a renovação da literatura brasileira


Por Aaron Salles Torres

Negativas são comuns e muitas vezes evidenciam erros por parte das editoras. Assim provou a escritora britânica JK Rowling, que enviou manuscritos de Harry Potter para 12 editoras e estas, sem de fato reconhecer o potencial do texto ou sua qualidade, recusavam os originais como de costume. O valor da obra foi finalmente reconhecido pela editora Bloomsbury e o resto é história.

Após terminar de escrever meu romance Debruçou-se, enviei-o a várias editoras nacionais em busca de publicação, assim como JK Rowling. As negativas sempre tinham tom muito parecido: diziam que a obra possuía inúmeras qualidades editoriais, mas que não se encaixava em nenhuma linha literária da empresa. Ao ler cada resposta, minha frustração era igual à de muitos escritores, mesmo os talentosos. Tais negativas são a prova inicial que testa nossa garra e vontade de se expressar.

Em nosso país, as provações por que passam os escritores novatos são ainda muito maiores que na Grã Bretanha ou outro país europeu ou norte-americano. Pois, no Brasil, não somente os escritores competem com outros talentos conterrâneos, como – principalmente – com sucessos comprovados internacionalmente e de venda certa. Nesse sentido o Brasil é, mais uma vez, uma aberração. Alguns poucos escritores brasileiros conseguiram se beneficiar de alguma maneira dessa estranha realidade, como Clarice Lispector, que traduzia enlatados enquanto trabalhava nos próprios textos. Mas a maioria dos bons escritores jovens no Brasil que levam a vocação a sério tem seu comprometimento com a literatura testado a cada passo.

Culpem as editoras, por sua falta de comprometimento com a escrita e a arte do Brasil e por sua sede de dinheiro fácil. Culpem o Ministério da Cultura, que não estipula uma porcentagem dos abatimentos fiscais da Lei de Incentivos que empresas devem dedicar à literatura. Ou culpem os legisladores, que ainda não inventaram taxação sobre a publicação de obras enlatadas ou um abate fiscal para incentivar o investimento em autores locais. Inquiram quem quiserem, mas, por sorte, jovens escritores não precisam mais esperar até que se achem os culpados.

Desapontado com as frias respostas das editoras diante de um trabalho de anos, comecei a pensar em formas alternativas de levar aos leitores os meus escritos. Encontrei no Kindle, da Amazon.com, uma promissora possibilidade. Ali publiquei duas obras minhas em inglês, sem qualquer investimento em publicidade, para testar as águas. Para meu espanto, as vendas começaram a ocorrer. De forma que, no dia 7 de setembro de 2009, minha peça de teatro experimental Born to Breed era a segunda obra mais vendida na categoria Teatro da Kindle, e sexta na categoria Comédia. No mesmo dia, meu roteiro cinematográfico The Strangers foi o segundo mais vendido na categoria Roteiros e o sexto na categoria Discriminação e Racismo.

Os números das vendas da Amazon costumam variar bastante, mas ainda assim me incentivaram a lançar no Kindle também o meu romance Debruçou-se, o qual havia concluído três anos antes. Não tinha grandes expectativas, pois era uma obra em português sendo vendida em um portal anglofono. Para meu espanto, porém, as vendas da obra logo ultrapassaram os números dos títulos em inglês. Não há ranking de obras em Português, mas os números foram muito gratificantes. Esses resultados comprovaram que o leitor de Língua Portuguesa quer, sim, saborear livros com conteúdo experimental de qualidade. O sucesso me motivou de uma vez por todas a lançar a obra no formato impresso convencional no Brasil. Assegurei a editora e Debruçou-se foi publicado no final de 2009.

Este é mais um exemplo do potencial e do alcance da impressão digital, que tem tudo a ganhar com a explosão contínua de novas mídias. Através do Kindle, ou agora do iPad, pode-se publicar um trabalho e deixar que os leitores decidam sobre sua qualidade. Utilizando Orkut, Facebook, Twitter ou YouTube, há a possibilidade de se criar marketing quase gratuito para encorpar as vendas. E cada vez torna-se mais viável a carreira literária sem se depender do conservadorismo e falta de comprometimento das editoras brasileiras, que mais e mais se provam obsoletas. E viva os leitores digitais! Deus tira com uma mão, mas dá com a outra.

2 comentários:

Bruno Sky disse...

Pq não conversa com o pessoal do Jovem Nerd ? eles lançaram o selo Nerd Books, e tem uma filosofia bem mais honesta qnt a publicação.

Dolphin disse...

Oi Bruno!

Obrigada pela colaboração!

Conheço o trabalho desenvolvido pelo pessoal do Jovem Nerd, por sinal, grandes empreendedores, o Nerdbooks é a maior prova disso.

Mas quanto ao texto, não é meu. O Clipagem Nerd tem o propósito de postar material de terceiros que consideramos interessante. Nesse caso por tanto é do autor Aaron Salles Torres e o artigo saiu no blog Pontolit.

Mas anotada a dica! Tem She-NSN por aqui que sonha ter suas histórias editadas!

Beijão!

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