terça-feira, 22 de junho de 2010

Caim



Quando pensei em escrever essa resenha um tinha começado com: “Como um escritor com tantos ano de profissão consegue manter a sua narrativa tão jovem?”. Infelizmente não poderei fazer mais essa introdução, pois José Saramago morreu.

O primeiro livro dele que li foi O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Um livro aliás que eu era muito jovem para aproveitar de verdade, tenho que reler muito em breve. Passei por Ensaio sobre a Cegueira e Todos os Nomes. Sua narrativa única marcou muito a minha forma de ver a arte da literatura.

Eu queria falar sobre Caim, não sobre Saramago, mas foi impossível não fazer esse pequeno desvio. Assim como o próprio Caim nesse belo livro.

Nessa história partimos do princípio que toda a mitologia cristã/judaica é verdadeira. Agora alie isso ao sarcasmo natural de Saramago e você terá Caim nas mãos.

Em alguns trechos me lembrou o Evangelho Segundo Jesus Cristo, mas agora tratamos de outra personalidade, a de Caim e do mundo primitivo onde ele supostamente viveu. Ele passa por seu próprio pecado, por Abraão e o dilúvio. É uma pequena viagem pelos livros do Velho Testamento. Encontra-se com Lilith e com seu próprio deus inúmeras vezes.

Caim é um bom livro para se começar a ler Saramago. Não que os mais “velhos” admiradores não devam fazê-lo, mas apenas lembrem-se que avisei. Vão encontrar uma narrativa mais solta, mais leve e descompromissada.

A mensagem, como em todos os livros desse célebre autor, é contundente e sarcástica. Vale a pena ler como tudo do Saramago.

Um autor que nunca morrerá por toda sua contribuição para a literatura e para o pensamento mundial. Descanse em paz!

Caim foi publicado pela Companhia das Letras em 07/10/2009. Para acessar a resenha da editora, clique aqui.

Um trecho do livro só pra dar água na boca!

Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo.”

PS: Obrigada especial aos meus amigos secretos do final do ano que me deram Caim de presente! Sim, pasmem, eu ganhei esse livro duas vezes de natal. Obrigada, Ricardo Winandy e @All3X.

1 comentários:

All3X disse...

Saramago tem um leitura um tanto quanto difícil, confesso que tenho que aprender a lidar com esse fato e ler mais sua obra, até porque seu tom de protesto, de forma tão bem construída, já é suficiente o motivo para se iniciar a leitura.
Aninha, meu anjo, que bom mesmo que tenha gostado da singela lembraça por mim enviada. E secreto não mais. Pois por mais que exista o virtual que separa, agora essa garota já consta na lista de amigos declarados, públicos e notórios. Mil abraços.

Postar um comentário

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Blogger Templates